sábado, 10 de dezembro de 2011

Para relacionar o Catch à UFC

Le catch, Pigalle, Paris


MITOLOGIAS
Roland Barthes

I
O MUNDO DO CATCH[1]

". . A verdade enfática do gesto nas grandes circunstâncias da vida"

Baudelaire


A virtude do catch é a de ser um espetáculo excessivo. Existe nele uma ênfase que devia ser a dos espetáculos antigos: Aliás, o catch é um espetáculo de ar livre, pois o que constitui o essencial do circo ou da arena não é o céu, (valor romântico reservado às festas mundanas), é o caráter denso e vertical dos espaços luminosos; do fundo das salas mais imundas de Paris, o catch participa da natureza dos grandes espetáculos solares, teatro grego e touradas: aqui e acolá, uma luz sem sombra elabora uma emoção sem disfarce.

Muita gente acha que o catch é um esporte ignóbil. O catch não é um esporte, é um espetáculo, e é tão ignóbil assistir a uma representação da Dor no catch, como ao sofrimento de Arnolfo ou de Andrômaca. Existe, evidentemente, um falso catch, pomposo, com as aparências inúteis de um esporte regular; mas esse não tem qualquer interesse. O verdadeiro catch, impropriamente chamado catch-amador, realiza-se em salas de segunda classe, onde o público adere espontaneamente à natureza espetacular do combate, como o público de um cinema de bairro. Essa mesma gente, em seguida, indigna-se por o catch ser um esporte falseado (o que, aliás deveria restringir a sua ignomínia). Ao público pouco importa em absoluto que o combate seja falseado ou não: e ele tem toda a razão. Entrega-se à primeira virtude, do espetáculo: abolir qualquer móbil ou conseqüência; o que lhe interessa é o que se vê, e não o que crê.

Este público sabe distinguir perfeitamente o catch do boxe; sabe que o boxe é um esporte jansenista, baseado na demonstração de uma excelência; pode-se apostar no resultado de um combate de boxe: no catch, isso não teria sentido. O match de boxe é uma história que se constrói sob o olhar do espectador; no catch, pelo contrário, cada momento é inteligível, prescindindo do desenvolvimento. O espectador não se interessa pelo progresso de um destino, espera a imagem momentânea de certas paixões. O catch exige, portanto, uma leitura imediata de significados justapostos, sem que seja necessário ligá-los. O futuro racional do combate não interessa ao amador de catch, ao passo que, pelo contrário, uma luta de boxe implica sempre uma ciência do futuro. Por outras palavras, o catch é uma soma de espetáculos, sem que um só seja uma função: cada momento impõe o conhecimento total de uma paixão que surge reta e só, sem jamais se estender em direção a um resultado que a coroe.

Assim, a função de um lutador de catch não é ganhar, mas executar exatamente os gestos que se esperam dele. Diz-se que o judô contém uma parte secreta de simbolismo; mesmo na eficiência, trata-se dê gestos contidos, 'precisos, mas curtos, desenhados corretamente, mas apenas traçados, sem volume. O catch, pelo contrário propõe gestos excessivos, explorados até ao paroxismo da sua significação. No judô, o lutador mal aflora o chão, rebola sobre si mesmo, desvia-se, esquiva a derrota, ou, se esta for evidente, abandona imediatamente a luta; no catch, o lutador prolonga exageradamente a sua posição de. derrota, caído, impondo ao público o espetáculo intolerável da sua impotência.

Esta função de ênfase é a mesma do teatro antigo, cuja força, língua, e acessórios (máscaras e coturnos) concorriam para fornecer a explicação exageradamente visível de uma Necessidade. O gesto do lutador de catch vencido, significando uma derrota que ele, em vez de ocultar, acentua e mantém como uma nota de órgão, corresponde à máscara antiga encarregada de significar o tom trágico do espetáculo. No catch, como nos teatros antigos, não se tem vergonha da dor, sabe-se chorar, saboreiam-se as lágrimas.

Cada signo do catch é, pois, dotado de uma limpidez total, visto que tudo deve ser compreendido no próprio instante em que se realiza. A evidência dos papéis assumidos pelos lutadores é de tal modo acentuada, que se impõe ao público assim que estes entram no ringue. Como no teatro, cada tipo físico exprime, em excesso, a tarefa a cumprir pelo combatente. Thauvin, qüinquagenário obeso e flácido, cuja hediondez assexuada inspira sistematicamente apelidos femininos, expõe, na sua carne, as características do ignóbil, visto que seu papel é figurar o que no conceito clássico do "salaud”[2] (conceito-chave de todos os combates de catch) se apresenta como organicamente repugnante. O nojo voluntariamente inspirado por Thauvin é, assim, particularmente completo enquanto signo: a fealdade não só serve para significar a baixeza, mas ainda coincide com uma qualidade particularmente repulsiva da matéria: a flacidez esbranquiçada de uma carne morta (o público chama Thauvin "la barbaque”[3]) de modo que a condenação apaixonada da multidão já não se elabora a partir de um juízo, mas forma-se no mais profundo de suas entranhas. O público adere, assim, untuosamente conforme à sua aparência física inicial: os seus atos corresponderão perfeitamente à viscosidade essencial do seu personagem.

O corpo do lutador é, assim, a primeira chave do combate. Sabe-se, desde o início, que todos os atos de Thauvin, as suas traições, crueldades e covardias, não decepcionarão a primeira imagem do ignóbil que ele apresenta: pode-se contar com ele para executar inteligentemente, e até ao fim, todos os gestos de uma certa baixeza informe, e para preencher assim a imagem do mais repugnante dos "salauds": o "salaud-pieuvre”[4]. Os lutadores de catch têm portanto um físico tão peremptório quanto o das personagens da Comédia italiana, que revelam, aberta e antecipadamente, pelos seus trajes e atitudes, o conteúdo futuro do seu papel: assim como Pantalão pode apenas ser um "corno" ridículo, Arlequim um criado astucioso, e o Doutor um pedante imbecil, assim Thauvin será sempre o traidor ignóbil, Reinières (louro grande, de corpo mole e cabelos desgrenhados) a imagem perturbante da passividade, Mazaud (galinho arrogante) a da fatuidade grotesca, e Orsano (exibicionista efeminado que aparece desde o início num roupão azul e rosa) a imagem duplamente picante de uma "salope"[5] vingativa (pois não penso que o público do Elysée-Montmartre conheça o Littré e considere o termo "salope" como masculino). O físico dos lutadores de catch institui portanto um signo de base, contendo, em germe, todo o combate. Germe esse que prolifera, pois a cada momento do combate, a cada situação, o corpo do lutador oferece ao público o maravilhoso divertimento do encontro espontâneo entre uma compleição e um gesto. As diferentes linhas de significação esclarecem-se umas às outras e constituem o mais inteligível dos espetáculos. O catch assemelha-se a uma escrita diacrítica: além da significação fundamental do seu corpo, o lutador dispõe de explicações episódicas, mas sempre bem vindas, ajudando a leitura do combate com seus gestos, atitudes e mímicas, que levam a intenção à sua máxima evidência. Nuns casos, o lutador triunfa com um ricto ignóbil, dominando sob os joelhos o adversário leal; noutros ostenta para a multidão um sorriso suficiente, anunciador de uma vingança próxima; noutros ainda, imobilizado por terra, bate violentamente com os braços no chão, para significar a todos o caráter intolerável da situação; enfim, dispõe um complicado conjunto de signos destinados a dar a entender que ele encarna, justamente, a imagem sempre divertida do sujeito intratável explorando à saciedade o seu descontentamento.

Trata-se, portanto, de uma verdadeira Comédia Humana, onde as nuances mais sociais da paixão (fatuidade, direitos, crueldade refinada, sentido do "pagar") encontram sempre, e felizmente, o signo mais claro que as possa recolher, exprimir, e levar triunfalmente até aos confins da sala. Compreende-se que neste ponto, já não o interessa que a paixão seja autêntica ou não. O que o público reclama é a imagem da paixão e não a paixão em si. Como no teatro, no catch também não existe o problema da verdade. Em ambos, o que se espera é a figuração inteligível de situações morais habitualmente secretas Este esvaziamento da interioridade, em proveito dos seus signos exteriores, este esgotamento do conteúdo pela forma, é o próprio princípio da arte clássica triunfante. O catch é uma pantomima imediata, infinitamente mais eficaz do que a pantomima teatral, visto que o gesto do lutador não necessita de nenhuma fábula, de nenhum cenário, isto é, não necessita de nenhuma transferência, para parecer verdadeiro.

Assim, cada momento do catch é como um álgebra que revela instantaneamente a relação entre uma causa e seu efeito figurado. Existe, sem dúvida, nos amadores de catch, uma espécie de prazer intelectual em ver funcionar com tanta perfeição a mecânica moral: certos lutadores, bons comediantes, divertem tanto quanto uma personagem de Molière, pois conseguem impor uma leitura imediata da sua interioridade. Armand Mazaud, lutador que encarna o tipo arrogante e ridículo (tal como se diz que Harpagon é um "tipo") entusiasma sempre a sala com o rigor matemático das suas transcrições, levando o desenho dos seus gestos até ao extremo limite de seu significado, e dando ao seu combate o arrebatamento e a precisão de uma grande disputa escolástica, em que estão em causa simultaneamente, o triunfo do orgulho e a preocupação formal da verdade.

O que assim se oferece ao público é o grande espetáculo da Dor da Derrota, e da justiça. O catch apresenta a dor do homem com todo o exagero das máscaras trágicas - o lutador que sofre sob o efeito de um golpe considerado cruel (um braço torcido, uma perna esmagada) ostenta a expressão excessiva do sofrimento; mostra o rosto exageradamente deformado por uma angústia intolerável, tal como uma Pietà primitiva. Compreende-se perfeitamente que no catch o pudor esteja deslocado, visto que é contrário à ostentação voluntária do espetáculo, a essa Exposição da Dor que é a própria finalidade do combate. Deste modo, todos os atos geradores de sofrimento são particularmente espetaculares, como um gesto de um prestidigitador que mostre o seu jogo sem disfarce: não se compreenderia uma dor que aparecesse sem causa inteligível; um gesto secreto, efetivamente cruel, transgrediria as leis não escritas do catch, e não teria nenhuma eficácia sociológica, tal como um gesto louco ou parasita. Aqui, pelo contrário, o sofrimento é infligido com limpidez e convicção, pois é preciso que todo mundo constate, não só que o homem sofre, mas ainda, e sobretudo, compreenda por que sofre. Aquilo a que os lutadores chamam uma "chave", isto é, uma figura qualquer que faz com que o lutador permaneça indefinidamente imobilizado e à mercê do adversário, tem precisamente como função preparar o espetáculo do sofrimento, de um modo convencional, portanto inteligível, e instalar metodicamente as condições do sofrimento: a inércia do vencido permite que o vencedor (momentâneo) se instale na sua crueldade e transmita ao público essa preguiça aterradora, típica do torturador seguro da execução progressiva dos seus gestos. O catch é o único esporte que oferece uma imagem inteiramente exterior da tortura: esfregar violentamente o focinho do adversário impotente ou percorrer-lhe a coluna vertebral com um punho áspero, profundo e regular, executar pelo menos a superfície visual destes gestos. Mas, uma vez mais, trata-se apenas de uma imagem e o espectador não deseja o sofrimento real do lutador, saboreia unicamente a perfeição de uma iconografia. Não é verdade que o catch seja um espetáculo sádico: é apenas um espetáculo inteligível.

Existe outra figura ainda mais espetacular do que a "chave", é a "manchette", golpe com os antebraços, murro larvado no peito do adversário, produzindo um ruído frouxo, a queda mole e ostensiva do corpo vencido. Na "manchette" a catástrofe atinge a sua máxima evidência, de tal modo que, no seu ponto extremo, o gesto aparece apenas como um símbolo. É. ir longe demais, sair das regras morais do catch, onde todo o signo deve ser excessivamente claro, mas não deve deixar transparecer a sua intenção de clareza. E o público grita "marmelada", não porque lamenta a ausência de sofrimento efetivo, mas porque condena o artifício: como no teatro, sai-se do jogo tanto por excesso de sinceridade como por excesso de representação.

Já se mencionou o partido que os lutadores tiram de um certo estilo físico, composto e explorado para desenvolver perante o público uma imagem total da Derrota. A moleza dos grandes corpos brancos que se abatem no chão subitamente, ou desmoronam contra as cordas, esbracejando, a inércia dos lutadores maciços lamentavelmente jogados por todas as superfícies elásticas do ringue significa mais do que tudo, clara e apaixonadamente, a humilhação exemplar do vencido. Destituído de qualquer energia, o corpo do lutador não é mais que uma massa imunda esparramada no chão, suscitando frenesis de animosidade e júbilo. Temos aí um paroxismo de significação, à maneira dos espetáculos antigos, que não pode deixar de lembrar-nos o luxo de intenções dos triunfos latinos. Noutros momentos, é ainda uma figura antiga que surge da relação física entre os lutadores: figura do suplicante, do homem indefeso, dominado, de joelhos, braços erguidos sobre a cabeça, e lentamente vergado pela tensão vertical do vencedor. No catch, contrariamente ao que acontece no judô, a Derrota não é um signo convencional que se abandone logo que atingido: não é um resultado, mas um processo exibitório que retoma os antigos mitos do sofrimento e da humilhação pública: a cruz e o pelourinho. O lutador de catch é como que crucificado, em plena luz, à vista de todos. Ouvi dizer, a propósito de um lutador estendido no chão: "está morto o pobre Jesus, ali, crucificado", e estas palavras irônicas desvendam as raízes profundas de um espetáculo que executa os gestos das mais antigas purificações.

Mas o catch tem essencialmente como função minar um conceito puramente moral: a justiça. A Idéia de "pagar pelo que se faz" é essencial no catch, e o "faça-o sofrer" da multidão significa, antes de mais nada "faça-o pagar". Trata-se pois, é claro, de uma justiça imanente. Quanto mais a ação do "salaud" é vil, tanto mais a justa vingança alegra o público. Se o traidor - que é, naturalmente, um covarde - se refugia atrás das cordas, invocando descaradamente a ilegalidade, e é impiedosamente agarrado e recolocado no ringue, a multidão) delira ao ver a regra violada em proveito de um castigo merecido. Os lutadores sabem bem como incentivar o poder de indignação do público, propondo-lhe o limite máximo do conceito de justiça, zona extrema do confronto, em que, basta que se traiam um pouco mais as regras, para que se abram as portas de um mundo frenético. Para um amador de catch, não há nada mais belo do que o furor vingativo de um lutador traído que se lança com paixão, não sobre um adversário vitorioso, mas sobre a imagem flagrante da deslealdade. Naturalmente, é sobretudo o movimento da justiça que interessa, muito mais do que o seu conteúdo: o catch é, entes de mais nada, uma série quantitativa de compensações (olho por olho, dente por dente). Isto explica o fato das reviravoltas de situações comportarem uma espécie de beleza moral para os amadores: gozam-nas como um episódio romanesco bem-vindo, e quanto mais é acentuado o contraste entre o êxito de um golpe e a reviravolta do destino, tanto mais o sucesso de um lutador está próximo do seu declínio, e tanto mais o mimodrama é considerado satisfatório. A Justiça é portanto o corpo de uma transgressão; é por haver uma Lei que o espetáculo das paixões que à transgridem adquirem todo o seu valor.

Compreende-se assim, que, aproximadamente, em cada cinco combates de catch, um só seja "correto". Uma vez mais, é preciso que se entenda que a “correção" é aqui uma função ou um gênero, como no teatro: a regra não constitui absolutamente uma sujeição real, mas a aparência convencional da correção.

Assim, na realidade, um combate "correto" é "apenas um combate exageradamente cortês: os combatentes afrontam-se aplicadamente mas sem rancor, sabem controlar suas paixões, não se obstinam em liquidar o adversário, param assim que se lhes dá ordem de interromper o combate, e cumprimentam-se no fim de um lance particularmente violento, durante o qual, no entanto, permaneceram leais um ao outro. Deve-se naturalmente entender que todas essas cortesias são evidenciadas perante o público pelos sinais mais convencionais da lealdade: apertar a mão, erguer os braços, abandonar ostensivamente uma "figura" estéril que prejudicaria a perfeição do combate.

Inversamente, a deslealdade só transparece através de figuras excessivas: dar um pontapé no vencido, refugiar-se atrás das cordas invocando ostensivamente um direito puramente formal, recusar um aperto de mão do adversário antes e depois do combate, aproveitar a pausa oficial para o atacar à traição, pelas costas, dar-lhe um golpe proibido sem que o árbitro veja (golpe que evidentemente só tem valor e função porque, de fato, metade da sala pode vê-lo e indignar-se). Sendo o Mal o clima natural do catch, o combate "correto" tem sobretudo um valor de exceção; surpreende o freqüentador habitual que lhe presta homenagem (são corretos pra burro, esses aí); sente-se subitamente comovido com a bondade geral do mundo, mas sem dúvida morreria de tédio e de indiferença se os lutadores não regressassem rapidamente à orgia dos maus sentimentos, que são os únicos a produzir bom catch.

Levado ao extremo, o catch "correto" só poderia conduzir ao boxe ou ao judô, enquanto que o verdadeiro catch deve a originalidade a todos os excessos que fazem dele um espetáculo e não um esporte. O fim de uma luta de boxe ou de um encontro de judô é seco, como o ponto que conclui uma demonstração. O ritmo do catch é totalmente diferente, pois o seu significado natural é o de uma ampliação retórica: a ênfase das paixões, o renovar dos paroxismos, a exacerbação das réplicas, só podem levar à mais barroca das confusões. Certos combates, entre os melhores, são coroados por uma algazarra final, uma espécie de "fantasia" desenfreada em que são abolidos os regulamentos, as leis do gênero, a censura do árbitro e os limites do ringue, arrastados numa desordem triunfante que se espalha pela sala e mistura indiscriminada ente os lutadores, os massagistas, o árbitro e os espectadores.

Já notamos que na América, o catch representa uma espécie de combate mitológico entre o Bem e o Mal (de natureza parapolítica, sendo o mau lutador sempre considerado como um Vermelho). O catch francês corresponde a uma mitificação totalmente diferente, de ordem ética e não política. O que o público procura aqui é a construção progressiva de uma imagem eminentemente moral: a do "salaud" perfeito. Vai-se ao catch para assistir às aventuras renovadas de um personagem principal, único, permanente e multiforme como Guígnol ou Scapin, criador inventivo de figuras inesperadas, e, no entanto, sempre fiel à sua função. O "salaud" revela-se como um "tipo" de Molière, ou um retrato de La Bruyère, isto é, como uma entidade clássica, como urna essência, cujos atos não são mais do que epifenômenos significativos dispostos no tempo. Este caráter estilizado não pertence a nenhuma nação nem a nenhum partido, e quer o lutador se chame Kuzchenko (que recebeu o apelido de Bigode por causa de Stalin), Yerpazian, Gaspardi, jo Vignola ou Nollières, o freqüentador habitual supõe-lhe apenas uma pátria: a "correção".

Em que consiste um "salaud" para esse público, ao que parece, composto em parte por "marginais"? Trata-se, essencialmente, de um instável, que só admite as regras quando estas lhe são úteis, e transgride a continuidade formal das atitudes. É um homem imprevisível, logo, associal. Refugia-se na Lei quando pensa que esta lhe é propícia, e a trai quando lhe convém; tão depressa nega o limite formal do ringue e continua a bater no adversário protegido legalmente pelas cordas, como restabelece esse limite e reclama a proteção do que, instantes antes, não respeitava. É esta inconseqüência, mais do que a traição ou a crueldade, que põe o público fora de si: melindrado na sua lógica e não na sua moral, considera a contradição de argumentos a mais ignóbil das faltas. Um golpe interdito só deixa de ser correto se destrói um equilíbrio quantitativo e perturba o jogo rigoroso das compensações; o que o público condena não é de modo algum a transgressão de pálidas regras oficiais, é a tibieza da vingança e da penalidade. Assim, nada excita mais a multidão do que o pontapé enfático dado a um "salaud" vencido; a alegria de castigar atinge o auge quando se apóia sobre uma justificação matemática; o público solta então as rédeas ao seu desprezo: já não se trata de um "salaud" mas de uma "salope", gesto oral da última das degradações.

Uma finalidade assim precisa exige que o catch seja exatamente o que o público espera dele. Os lutadores, homens de grande experiência, sabem perfeitamente infletir os episódios espontâneos do combate no sentido da imagem que o público criou, para si próprio, dos grandes temas maravilhosos de sua mitologia. Um lutador pode irritar ou repugnar, mas nunca decepciona, visto que executa sempre até o fim o que o público espera dele, através de uma solidificação progressiva dos signos. No catch tudo o que existe, existe totalmente, não há símbolos nem alusões, tudo é dado exaustivamente; não deixando nada na sombra, o gesto elimina os significados parasitas e apresenta ritualmente ao público uma significação pura e plena, esférica, tal como uma Natureza. Esta ênfase nada mais é do que a imagem popular e ancestral da inteligibilidade perfeita do real. O que é mimado pelo catch é, portanto, uma inteligência ideal das coisas, é uma euforia dos homens, preservados durante um certo lapso de tempo da ambigüidade constitutiva das situações cotidianas, e instalados na visão panorâmica de uma Natureza unívoca, onde os signos corresponderiam enfim às causas, sem obstáculo, sem fuga e sem contradição.

Quando o herói ou o vilão do drama, o homem que há minutos se vira possuído de um furor moral, desenvolvido até à dimensão de uma espécie de signo metafísico, sai da sala de catch, impassível, anônimo, levando na mão uma pequena mala e de braço dado com a mulher, ninguém pode duvidar de que o catch contém o poder de transmutação que é próprio do Espetáculo e do Culto. No ringue, e no mais profundo da sua ignomínia voluntária, os lutadores são deuses, porque são durante alguns instantes a chave que abre a Natureza, o gesto puro que separa o Bem do Mal e desvenda a figura de uma justiça enfim inteligível.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Seminário de Inverno da ALI, Janeiro de 2012 em Paris

 

Qu'est-ce que ça serait pour vous une fin d'analyse ?

  • Étude du texte de Freud, Analyse finie ou infinie et du texte de Lacan, La Troisième
  • Organisateur(s) : Association Lacanienne Internationale
  • Du samedi 28 janvier 2012 au dimanche 29 janvier 2012
  • Lieu de déroulement : Paris Espace Reuilly, 21 rue Hénard - 75012 (France)

domingo, 25 de setembro de 2011

V CONGRESSO INTERNACIONAL DE CONVERGENCIA (texto da APPOA)

O ATO PSICANALÍTICO E SUAS INCIDÊNCIAS CLÍNICAS, POLÍTICAS E SOCIAIS




Coleção Carretéis – Iberê Camargo (1975)
22, 23 e 24 de junho de 2012
Porto Alegre/RS - Brasil

      A Psicanálise é uma prática discursiva cujos efeitos podem ser observados na clínica e também na vida cotidiana há mais de um século. Suas posições inovadoras, mesmo subversivas, sempre foram objeto de discussão dentro e fora das instituições psicanalíticas. As incidências do trabalho com o inconsciente mostram que a escuta do sintoma é possível considerando que este é sinal do sujeito e não manifestação de doença. Ora, nestes tempos de exigência de gozo imediato e de discursos fundamentalistas, face ao inevitável mal-estar na cultura, um tratamento que não ofereça cura milagrosa ou co nsolo permanente coloca-se como referência ética de que os atos de palavra são transformadores.  As associações e os psicanalistas reunidos em Convergencia – movimento lacaniano para a psicanálise freudiana – consideram que as articulações entre o sujeito e sua polis são indissociáveis; pois o psicanalista é permeável aos discursos e, para que a psicanálise possa avançar em sua prática e teoria, faz-se necessário um exame permanente das consequências de seus atos.
   No V Congresso Internacional de Convergencia que acontece em Porto Alegre, teremos oportunidade de renovar esta aposta. Um momento de encontro e debate sobre os efeitos do ato psicanalítico na clínica das neuroses, das psicoses e das perversões. Acontecimento onde os psicanalistas podem dar conta da sustentação de seu ato nos mais diversos âmbitos – consultórios, ambulatórios, hospitais e outros cujo lugar de reunião é uma oportunidade para compartilhar a experiência. Além disto, temos espaço para verificar os efeitos do ato no social, a experiência do encontro do discurso psicanalítico com as políticas públicas, sejam elas educacionais, culturais, ou de saúde mental.
    Um significante lançado ao mundo não é mais individual, afirmava Jacques Lacan em diversos momentos ao retomar o legado de Freud. Cada analista tem responsabilidade com a psicanálise ao sustentar em sua escuta os desdobramentos do fantasma na atualidade. Ao mesmo tempo, interrogar a política dos enlaces no campo psicanalítico faz parte de sua formação. Além disto, a transmissão do discurso psicanalítico está aberta às incidências do ato criativo, fazendo eco à potencia do discurso em seu esburacamento do real.
     Convidamos a participar deste evento, no qual psicanalistas de diferentes línguas, formações e transferências estão dispostos ao diálogo e a relançar o ato inaugural que nos faz sustentar o que é a psicanálise.
  
Eixos de trabalho
• As formas do tratamento psicanalítico na atualidade – o ato analítico. (Incidências Clínicas)
• A intervenção clínica da psicanálise nas políticas públicas; a política das instituições psicanalíticas; a política do desejo in-mundo. (Incidências Políticas)
• Como formular o mal-estar na cultura hoje?  O ato analítico frente ao mal-estar contemporâneo. O laço social frente ao individualismo, gozo e sofrimento. (Incidências Sociais)
• O ato e a criação do novo na cultura.
Instituições convocantes:
Apertura (Espanha)
Après-Coup Psychoanalytic Association (EUA)
Acte Psychanalytique (Bélgica)
Analyse Freudienne (França)
Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Brasil)
Círculo Psicoanalítico Freudiano (Argentina)
Cartels Constituants de L'Analyse Freudienne (França)
Centre Psychanalytique de Chengdu (China)
Colégio de Psicanálise de Bahia (Brasil)
Corpo Freudiano do Rio de Janeiro Escola de Psicanálise (Brasil)
Dimensions de la Psychanalyse (França)
Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro (Brasil)
Escuela Freud-Lacan de La Plata (Argentina)
Escuela de Psicoanálisis Lacaniano (Argentina)
Escuela de Psicoanálisis de Tucumán (Argentina)
Escuela de Psicoanálisis Sigmund Freud-Rosario (Argentina)
Escuela Freudiana de Buenos Aires (Argentina)
Escuela Freudiana de la Argentina (Argentina)
Escuela Freudiana de Montevideo (Uruguai)
Escuela Freudiana del Ecuador (Equador)
Espace Analytique(França)
Espaço Psicanálise (Brasil)
Fédération Européenne de Psychanalyse et École Psychanalytique de Strasbourg (França)
Grupo de Psicoanálisis de Tucumán (Argentina)
Insistance (França)
Intersecção Psicanalítica do Brasil (Brasil)
Laço Analítico Escola de Psicanálise (Brasil)
Lazos Institución Psicoanalítica (Argentina)
Le Cercle Freudien (França)
Letra, Institución Psicoanalítica (Argentina)
Maiêutica Florianópolis (Brasil)
Mayeutica-Institución Psicoanalítica (Argentina)
Nodi Freudiani Associazione Psicanalítica (Itália)
Praxis Lacaniana Formação em Escola (Brasil)
Psychanalyse Actuelle (França)
REAL 50; Red Analítica Lacaniana (México)
$eminario Psicoanalítico (Argentina)
Trieb Institución Psicoanalítica (Argentina)
Triempo Institución Psicoanalítica (Argentina).
  
Realização: Convergencia – Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A Língua: Lacan, Guimarães Rosa e Caetano



"a língua  e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica." (Guimarães Rosa, citação em "Primeiras estórias", 2005, p. 8)
  
Criada num lapso por Lacan ( no Seminário "O saber do psicanalista"), a Lalangue é o meio pelo qual a linguagem intervém. A Língua é a "amante" de um certo João, conhecido como Guimarães Rosa, que o fez seguir na prosa da literatura como se fizesse poesia. Há Língua definitivamente nas canções do criativo e irreverente Caetano Veloso. Não só quando na "Língua" ela assume o lugar de mátria, mas em tantas outras palavras onde se pode ver o amor pelo literal (litoral), onde nada se escreve fora da palavra, na margem da palavra a não ser o silêncio de um puro Real da música e da voz do cantor. 

Disso ecoam algumas frases do psicanalista Lacan tão conectadas a essa poesia da música e da literatura, da arte, enfim. 
"Eu trabalho no impossível de dizer. Dizer é outra coisa que falar. O analisante fala. Ele faz  poesia. Ele faz poesia quando ele aqui chega, é pouco frequente, mas ele é arte (Il est art). Eu corto porque eu não quero dizer é tarde (Il est tard). O analista, ele, fatia (tranche). O que ele diz é corte, isto é, participa da escrita, exceto que ele se equivoque acerca da ortografia.” (Lacan, J. Le moment de conclure, 20/12/1977, inédito In Porge, E. Des Fondements de la Clinique psychanalytique, p. 40)  
"O dizer fica esquecido por  trás do dito" (Lacan, O Aturdito, [1972]2003, p. 449). Esquecido não no sentido de reclacado, mas de ex-sistente (existente fora/antes). O esquecido aqui, como frisa Lacan nesse mesmo texto, não está relacionado à memória, mas à existência. Esse dizer como o qual o analista trabalha é também a lavra do escritor. É o pai da palavra, tão bem conhecido por Guimarães Rosa, e encarnado na figura do pai que parte em silêncio em sua canoa, num dos textos mais valiosos da literatura brasileira, "A Terceira Margem do Rio".
O pai que parte e nunca volta é esse silêncio rio a fora, que faz o filho falar, escrever o texto. Esse dizer, concretizado no  duro-puro (aqui faço referência a Caetano[1]) silêncio paterno, é a ex-sistência das palavras do filho. O antes de qualquer significante.   Isso que nos toca antes da palavra e que  só depois quando ela chega se pode dizer tocado.
E, no que me toca, a Língua é coisa séria... Mais uma vez Lacan (Ou pire...[1971-1972]2008, p. 71), na aula em que apresenta o Nó Borromeano:
"O que me toca é que durante séculos, quando se tocava na língua, se falava para tomar cuidado! Há uma letra que só aparece geralmente à margem na composição fonética, é essa aqui [H], que se pronuncia hache em francês. Não toque no machado[2], é isso que era prudente durante os séculos quando se tocava na língua. Porque se achou que durante os séculos, quando se tocava na língua, em público, isso fazia efeito, um efeito diferente da diversão..."
O divertimento sério que nos propõe Lacan nessa aula e no seu ensino, eu ousaria dizer que é bem parecido com a brincadeira do moleque Caetano Veloso e com a paixão do tri-marginal João Guimarães Rosa! 
Sempre na margem da palavra...
Patrícia Pinheiro  





[1] “A terceira margem do rio” (música de Milton Nascimento e letra de Caetano Veloso)
[2] A palavra hache em francês significa machado; é homógrafa ao nome da letra H, hache. (Nota da tradutora)


domingo, 7 de agosto de 2011

NÚCLEO DE ESTUDOS DAS PSICOSES

* 1. Por que criar um Núcleo de estudos das psicoses?
Porque acredito que sabemos muito pouco sobre a loucura e suas manifestações...
Quando eu ainda era uma estudante do 3º ano do segundo grau, hoje ensino médio, houve um ciclo de palestras no meu colégio para auxiliar na escolha da profissão. O palestrante que mais me marcou foi o psiquiatra Alaor Coutinho. Não consigo esquecer sua maneira entusiasta ao falar sobre o louco e a loucura. Porque precisei fazer outras escolhas antes de me render ao desejo de escutar a psicose, é outra história... Mas o fato é que ao me tornar psicanalista isso me pegou!   
O “núcleo” - Núcleo de estudos das psicoses - é a com-formação desse desejo calado que pode encontrar espaço na TRICICLO, na minha formação como analista e nos meus estudos insistentemente endereçados à Universidade.
Voilá! Eis-me aqui, de forma apaixonada, convocando os interessados na temática para boas conversas, presenciais ou on-line, a partir de setembro próximo.
A agenda sairá em breve!
Patrícia Pinheiro

sábado, 6 de agosto de 2011

ALVARÁ DE FUNCIONAMENTO DEFINITIVO

Comunicamos aos nossos pacientes, seguidores e colegas que a TRICICLO,  funcionando com alvará provisório desde sua abertura em março deste ano, segue em seus trabalhos com alvará definitivo a partir do mês de agosto!


NOVO HORÁRIO_GRUPO DE ESTUDOS

"LACAN FUNDAMENTAL - A Carta Roubada", QUE COMEÇARÁ NA PRÓXIMA SEMANA (16.08), FUNCIONARÁ NA SEDE DA TRICICLO ÀS TERÇAS-FEIRAS DAS 18:30H ÀS 20H.
Para inscrição envie e-mail para: clintriciclo@uol.com.br